A luz acende. Jorge está em frente aquele maciço branco. Abrir ou não abrir. São três da manhã, ele pensa. São apenas três da manhã, ele repensa. Todas as caminhadas dos últimos cinco meses estão em risco. Todo o desconforto de usar aquela roupa de ginástica pode ter sido em vão. Todos os churrascos de amigos que evitou podem ir pelo ralo. Como um grande colosso Jorge não mexe um músculo. Apenas olha para o fruto do seu prazer. Mulheres e sexo? Não, o que ele gostava mesmo era da geladeira. Tão fria, alguns diziam. Para ele não havia aconchego melhor. Era com ela que Jorge se satisfazia. Jorginho na infância, Jorjão na repartição, ganhou em poucos anos, o que tentava perder todos os meses. Desde que Isabel havia partido, começou uma saga insana pelo mundo da alta caloria. Em cada canto da casa um quitute. Uma delícia açucarada, um biscoitinho inocente. Juntos formavam sua aparência flácida e túrgida. Foi assim por muito tempo até que Rita apareceu em sua vida. Uma mulher madura e que prescrevia todo mês uma nova tentativa de Jorge sair do mundo redondo. Nutricionista e solteirona convicta, transferia para suas dietas radicais, todo seu élan reprimido. Era cruel e se deliciava em ver seus pacientes penarem com suas metas, mas já estava farta das pessoas preguiçosas que buscavam seu consultório em uma salinha quente do Bigorrilho. Porém com Jorge era diferente. Simpatizou com o rapaz de barba mal feita. Com ele, não pensava apenas na tabela do plano de saúde e dedicava-se conforme seu juramento. Apesar dos avanços, sentia que poderia perdê-lo a qualquer instante e ser trocada por um último brigadeiro. Porque sempre é o último. Maldito brigadeiro. Jorge relutou em trazê-lo. Não comeu na festa e não queria sequer contato com ele. Por educação acabou aceitando a quentinha. No caminho de casa teve a oportunidade de desfazer-se da encomenda e não conseguiu. Passou a acreditar que ele poderia justamente lhe trazer força, ser um símbolo de seu esforço.
Enganou-se. Passou as últimas quatro horas apenas pensando nele. Dentro de sua White Westinghouse 410 litros. Um brigadeirinho solitário em meio aos nabos, rabanetes, melões e berinjelas. São apenas quatro da manhã, pensou. Já são quatro da manhã, repensou. Suas pernas estavam cansadas, suava, salivava e tremia após aquele giro interminável do relógio. Levou infinitas vezes a mão ao trinco mas pensava na decepção de Rita. Isto não era o bastante. Movido por seus batimentos acelerados, abre a geladeira e arranca dela o tão famigerado docinho. Mas não o come. Apenas o segura com delicadeza e pensa que a cozinha não seria o melhor lugar para arrematá-lo. Vai até seu quarto e vê sua cama king size vazia. Lembra de Isabel. De Ana, Maria, Carla e Roberta. Aproxima-se da sacada e arremessa longe a guloseima. A brisa do amanhecer seca rapidamente a lágrima que sai de seus olhos. São seis da manhã. Hora do queijo branco com torradas e chá preto adoçado com stevia. Bom dia Jorge, ele pensa. Insosso dia Jorge, ele repensa.
terça-feira, dezembro 23, 2008
Um dia depois do outro
Olhava lentamente o movimento frenético do trânsito. Na cabeça, um dia de merda. Daqueles pra apagar com força. Analisa possibilidades. Dar um simples passo a frente seria uma delas. Seria a última. Ou a primeira. Saiu de casa cedo na mesma e sagrada hora. Como era difícil sair um minuto depois. João não conseguia. Parecia que seus músculos, suas artérias e seus neurônios estavam intimamente conectados ao maldito Pateck Philippe. Herança única do seu pai. O compasso lento e profundo dos ponteiros dava o ritmo da sua vida. Cinza. Já tinha tentado escapar. Não teve sucesso. Tentou até vendê-lo mas o filha da puta voltou pra sua mão, pro seu bolso, porque sem ele João era ainda mais fraco. Pela janela embaçada do ônibus ele acompanha o trajeto. Vê as mesmas placas. As mesmas propagandas mentirosas. As cores viciantes. Procura entender como sua vida pode ser tão agoniante. Olha pro lado e vê a morena de todas as manhãs. Um alento. Nunca tinha lhe direcionado uma sílaba. Fita vagarosamente com o cuidado de não ser notado. Nem precisaria. Chega a sua vez de descer. A chuva aperta mas nada o impede de chegar no horário. Dá um estúpido valor àquelas cinco quadras que fez correndo, ao suor que exalou por seus poros. No exato segundo assume seu posto. Um emprego arranjado por sua mãe nos últimos e melancólicos dias de sua vida. A maioria das pessoas não durava nem dois meses. João estava lá há sete. Anos. Seu objetivo era claro: cobrar. Era pago pra isso. Até sentia prazer. Sabia que seu destino não era o céu. Tudo bem. Não acreditava nele. Escutava tudo pacientemente. Xingamentos e reclamações de pessoas desesperadas. Pessoas que se pudessem, partiriam seus ossos em suaves prestações, romperiam suas entranhas discando fortemente o número nove e ferveriam seus miolos junto do odioso sistema. O mundo estava sendo gravado. Sobre sua cabeça uma nuvem densa. Sob seus pés um buraco não grande o suficiente para que ele se enterrasse. O dia se arrastava. Menos um ele pensava. João esperava por algo. Pelo fim. Mais uma vez faltava-lhe coragem. Saiu do trabalho da mesma forma como entrou: sem ser notado. Ninguém lhe dirigia a palavra, ninguém lhe olhava. Poderia andar nu e nunca seria lembrado. Passo-a-passo, segundo após segundo, João chega a esquina da rua sete com a treze. Respira. Sorve coragem. Pensa na música que nunca escreveu. Na viagem que nunca fez. Na garrafa de vinho de cinqüenta paus que nunca tomou. Na boca que nunca beijou. Na boceta que nunca comeu. Na carreira que nunca cheirou. No filho que nunca teve. No deus que nunca acreditou. Pensa no dia seguinte. Dá o passo. O som de seus ossos sendo quebrados por aquele ônibus é suficiente para que João esboce um pequeno sorriso. Em muitos tempos o primeiro. Pra ele, o último. O relógio finalmente para. Já não se fazem Patecks Philippes como antigamente.
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