terça-feira, dezembro 23, 2008

O último brigadeiro

A luz acende. Jorge está em frente aquele maciço branco. Abrir ou não abrir. São três da manhã, ele pensa. São apenas três da manhã, ele repensa. Todas as caminhadas dos últimos cinco meses estão em risco. Todo o desconforto de usar aquela roupa de ginástica pode ter sido em vão. Todos os churrascos de amigos que evitou podem ir pelo ralo. Como um grande colosso Jorge não mexe um músculo. Apenas olha para o fruto do seu prazer. Mulheres e sexo? Não, o que ele gostava mesmo era da geladeira. Tão fria, alguns diziam. Para ele não havia aconchego melhor. Era com ela que Jorge se satisfazia. Jorginho na infância, Jorjão na repartição, ganhou em poucos anos, o que tentava perder todos os meses. Desde que Isabel havia partido, começou uma saga insana pelo mundo da alta caloria. Em cada canto da casa um quitute. Uma delícia açucarada, um biscoitinho inocente. Juntos formavam sua aparência flácida e túrgida. Foi assim por muito tempo até que Rita apareceu em sua vida. Uma mulher madura e que prescrevia todo mês uma nova tentativa de Jorge sair do mundo redondo. Nutricionista e solteirona convicta, transferia para suas dietas radicais, todo seu élan reprimido. Era cruel e se deliciava em ver seus pacientes penarem com suas metas, mas já estava farta das pessoas preguiçosas que buscavam seu consultório em uma salinha quente do Bigorrilho. Porém com Jorge era diferente. Simpatizou com o rapaz de barba mal feita. Com ele, não pensava apenas na tabela do plano de saúde e dedicava-se conforme seu juramento. Apesar dos avanços, sentia que poderia perdê-lo a qualquer instante e ser trocada por um último brigadeiro. Porque sempre é o último. Maldito brigadeiro. Jorge relutou em trazê-lo. Não comeu na festa e não queria sequer contato com ele. Por educação acabou aceitando a quentinha. No caminho de casa teve a oportunidade de desfazer-se da encomenda e não conseguiu. Passou a acreditar que ele poderia justamente lhe trazer força, ser um símbolo de seu esforço.
Enganou-se. Passou as últimas quatro horas apenas pensando nele. Dentro de sua White Westinghouse 410 litros. Um brigadeirinho solitário em meio aos nabos, rabanetes, melões e berinjelas. São apenas quatro da manhã, pensou. Já são quatro da manhã, repensou. Suas pernas estavam cansadas, suava, salivava e tremia após aquele giro interminável do relógio. Levou infinitas vezes a mão ao trinco mas pensava na decepção de Rita. Isto não era o bastante. Movido por seus batimentos acelerados, abre a geladeira e arranca dela o tão famigerado docinho. Mas não o come. Apenas o segura com delicadeza e pensa que a cozinha não seria o melhor lugar para arrematá-lo. Vai até seu quarto e vê sua cama king size vazia. Lembra de Isabel. De Ana, Maria, Carla e Roberta. Aproxima-se da sacada e arremessa longe a guloseima. A brisa do amanhecer seca rapidamente a lágrima que sai de seus olhos. São seis da manhã. Hora do queijo branco com torradas e chá preto adoçado com stevia. Bom dia Jorge, ele pensa. Insosso dia Jorge, ele repensa.

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