terça-feira, dezembro 23, 2008

Um dia depois do outro

Olhava lentamente o movimento frenético do trânsito. Na cabeça, um dia de merda. Daqueles pra apagar com força. Analisa possibilidades. Dar um simples passo a frente seria uma delas. Seria a última. Ou a primeira. Saiu de casa cedo na mesma e sagrada hora. Como era difícil sair um minuto depois. João não conseguia. Parecia que seus músculos, suas artérias e seus neurônios estavam intimamente conectados ao maldito Pateck Philippe. Herança única do seu pai. O compasso lento e profundo dos ponteiros dava o ritmo da sua vida. Cinza. Já tinha tentado escapar. Não teve sucesso. Tentou até vendê-lo mas o filha da puta voltou pra sua mão, pro seu bolso, porque sem ele João era ainda mais fraco. Pela janela embaçada do ônibus ele acompanha o trajeto. Vê as mesmas placas. As mesmas propagandas mentirosas. As cores viciantes. Procura entender como sua vida pode ser tão agoniante. Olha pro lado e vê a morena de todas as manhãs. Um alento. Nunca tinha lhe direcionado uma sílaba. Fita vagarosamente com o cuidado de não ser notado. Nem precisaria. Chega a sua vez de descer. A chuva aperta mas nada o impede de chegar no horário. Dá um estúpido valor àquelas cinco quadras que fez correndo, ao suor que exalou por seus poros. No exato segundo assume seu posto. Um emprego arranjado por sua mãe nos últimos e melancólicos dias de sua vida. A maioria das pessoas não durava nem dois meses. João estava lá há sete. Anos. Seu objetivo era claro: cobrar. Era pago pra isso. Até sentia prazer. Sabia que seu destino não era o céu. Tudo bem. Não acreditava nele. Escutava tudo pacientemente. Xingamentos e reclamações de pessoas desesperadas. Pessoas que se pudessem, partiriam seus ossos em suaves prestações, romperiam suas entranhas discando fortemente o número nove e ferveriam seus miolos junto do odioso sistema. O mundo estava sendo gravado. Sobre sua cabeça uma nuvem densa. Sob seus pés um buraco não grande o suficiente para que ele se enterrasse. O dia se arrastava. Menos um ele pensava. João esperava por algo. Pelo fim. Mais uma vez faltava-lhe coragem. Saiu do trabalho da mesma forma como entrou: sem ser notado. Ninguém lhe dirigia a palavra, ninguém lhe olhava. Poderia andar nu e nunca seria lembrado. Passo-a-passo, segundo após segundo, João chega a esquina da rua sete com a treze. Respira. Sorve coragem. Pensa na música que nunca escreveu. Na viagem que nunca fez. Na garrafa de vinho de cinqüenta paus que nunca tomou. Na boca que nunca beijou. Na boceta que nunca comeu. Na carreira que nunca cheirou. No filho que nunca teve. No deus que nunca acreditou. Pensa no dia seguinte. Dá o passo. O som de seus ossos sendo quebrados por aquele ônibus é suficiente para que João esboce um pequeno sorriso. Em muitos tempos o primeiro. Pra ele, o último. O relógio finalmente para. Já não se fazem Patecks Philippes como antigamente.

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